quarta-feira, 20 de junho de 2007

Cristina

Há alturas em que apanhamos assim uma pancada das valentes. Deve ser para nos lembrarmos de que esta merda está muito longe de só ter coisas boas…

Na madrugada de hoje, e depois de uma luta titânica contra uma maldita doença, a minha querida Amiga Cristina deixou-nos. A Cristina do Porto, como eu dizia, sempre que falava dela.


Faz agora dezoito anos que eu andava à espera do começo das aulas no Técnico. Como aquilo não atava nem desatava, fui com o António e o Pedro ao Porto pela primeira vez. E foi através do “Pedro Velho” (nome que ela lhe deu por ser o mais “velho”, em termos de amizade) que a conheci.

Lembro-me bem desse dia. Foi a 25 de Novembro de 1989, e chovia “à lá Porto”, como tinha que ser. Ficámos quarenta e cinco minutos à espera da boleia dela num Domingo de manhã, à porta do Café Ceuta. Quando chegou, sorriu para nós, e pediu desculpas (“cabeleireiro”…), com aquele sotaque tripeiro inconfundível.

Nessa primeira conversa, contei-lhe que, na véspera, tínhamos andado meio perdidos à chegada ao centro do Porto! E, quando perguntei a uma senhora que passava por nós na altura, onde é que estávamos, ela respondeu: “Oh senhuores, estão em Sá da Baundeira”! Ela riu às gargalhadas com esses "Senhuores" e “Baundeira”, que só se ouvem ditos desta forma em plena Invicta.

Sempre que falávamos, lembrávamo-nos com saudades dessa conversa. E gozava-me sempre com o "mêmo" - o "mesmo" que eu teimava em dizer à alfacinha. :)

Desde então, tornámo-nos bons Amigos. Ela acabou Direito, e eu fiz a minha Engenharia. Durante o meu Técnico, quis o destino que a sua Mãe partisse, igualmente muito cedo. Ela lutou com todas as suas forças para que tal não acontecesse mas, como todos sabemos, nestas coisas, quando tem que ser, é mesmo.

A partir daí, foi todos os Domingos visitá-la.

Depois, acompanhámo-nos no começo das nossas vidas adultas. Falávamo-nos imenso ao telefone, escrevíamo-nos, enfim: éramos mesmo Amigos. Conseguimos que os trezentos e treze quilómetros que nos separavam nunca nos tivessem efectivamente afastado.

Era daquelas amizades desinteressadas: cada um tinha a sua vida, os seus amigos, os seus colegas, a sua cidade. Mas sempre que falávamos, mesmo que fosse depois de meses sem o fazer, parecia que nos tínhamos visto ontem. Sabem como é, não sabem?

Foi com ela que fui, pela primeira vez, ao Aleixo, na Campanhã. Inesquecíveis filetes, aqueles! E também me mostrou a "Adega Machado", na Maia onde, pela primeira vez na vida, comi Papas de Sarrabulho! Espectáculo. :)

Lembro-me bem das suas vindas a Lisboa, sempre acompanhada pelo seu Zé Carlos: esteve nos U2 em 1997, em Alvalade, na Expo, em 98, em alguns Sporting – Porto (muito ela me picava por causa do futebol!) e em passagens esporádicas pela Portela, a caminho de outras paragens.

Vibrou imenso com as vitórias do seu Futebol Clube do Porto, que fez questão de acompanhar a Sevilha e a Gelsenkirchen nas finais que lhe trouxeram as mais recentes Glórias.


Nunca esquecerei toda a força que me deu naquele meu terrível ano de 1999. Também a ela devo muito da minha “recuperação”.

Ultimamente, falávamos menos – certamente já um reflexo do que a acabou por vencer. Mas, de vez em quando, lá vinham umas mensagens, ou uns e-mails. E nunca, mas nunca, se esqueceu de me dizer qualquer coisa por alturas do meu aniversário! No Natal, trocávamos os postais da praxe. “Gente fina é assim!”, como ela diria. :)

Partiu hoje. E não merecia que fosse assim.

Por tudo aquilo por que passou, e por tudo aquilo que ainda tinha que viver, não merecia. Nem ela, nem o grande Zé Carlos, nem o pai dela. Mas é assim.

É por estas e por outras que, por vezes, a descrença nisto tudo é enorme…

O meu mundo, hoje, abanou muitíssimo. Fiquei mais pobre e muito, mas mesmo muito triste.


Tenho pena de não lhe ter conseguido agradecer tudo aquilo que ela me deu, ao longo desta nossa Amizade. Mas acho que ela, onde quer que esteja, sabe que tem um lugar único aqui dentro, bem fundo no meu coração.

“Até logo, Cristina! E olha, quando finalmente nos reencontrarmos, a ver se voltamos a ir ao Machado, ali na Maia... ou “mêmo” ao Aleixo, comer uns filetes daqueles. Achas bem? :) "

6 comentários:

Pitx disse...

porra, post do camandro, mano.

és grande, meu cabrãozinho, és grande!

Tirtaruga disse...

Sabes lá... se calhar foi para um sítio muito melhor, onde se come sem engordar, ama-se sem enjoar e não há ninguém a ter as primeiras 20 licoes de piano.

Eu e o pitx cantamos-te uma cantiga de amigo no jantar e vais ver como arrebitas!

arianams disse...

Compreendo o que sentes...
Vais ver que te vais lembrar mais dela do que pensas! E espero que gostes dessas lembranças, assim como me acontece quando me lembro de quem já foi.
Se precisares de alguma coisa, é só dizer.
Beijinhos

gir@f disse...

...como te compreendo né?
Bjokas gordas

Anónimo disse...

Arrepiei-me...
Bem sei o que sentes...
Não tenho palavras...
Beijinhos, Choco

Anónimo disse...

O tempo vivido, e os momentos partilhados sabem sempre a pouco, quando somos confrontados com a ausência permanente de quem gostamos...

Guardar carinhosamente as boas lembranças, recordar as suas qualidades e virtudes e acreditar que gozam de tranquilidade eterna parece ser a forma mais nobre e justa de preservarmos as suas memórias. Conseguiste fazê-lo!

Com amizade