terça-feira, 27 de novembro de 2007

A minha árvore



Ontem à noite, andavam a condicionar o estacionamento aqui no meu bairro.

Puseram umas fitas fitas vermelhas e brancas à volta de alguns dos carros que estavam estacionados e, por causa disso, vi-me grego para estacionar o meu.

Julgava que seria por causa de mais uma filmagem - não seria a primeira vez... - mas não. Soube, já hoje de manhã, que era para aparar as árvores que aqui ainda resistem, e que o tornam num dos bairros residenciais mais aprazíveis de Lisboa.


Hoje, à hora do almoço, já o trabalho tinha começado - ia, possivelmente, a meio. E o cenário era triste: uma das grandes árvores que ladeavam o recinto da escola primária estava (literalmente) às fatias. Restava apenas meio metro do tronco, cortado rente, perto do solo, e muitos ramos cortados já no chão, na rua.

Fez-me pena. Afinal de contas, era uma árvore bem alta, muito bonita, aparentemente saudável, e que deve demorar muitos anos a crescer.

Não percebi, sinceramente, o porquê do corte. Talvez a árvore estivesse doente. Talvez. Seja como for, ficou ali um vazio desolador.

Aí, confesso, temi pelas "aparadelas" que iriam, certamente, dar aquela que é, talvez, a principal árvore do bairro, a minha árvore, a que estava bem no meio do largo que fica à frente das janelas de minha casa.


Mas pensei: "Bem, se estivesse doente, certamente que já a teriam tratado, ou aparado. Espero é que não a cortem demasiado - se isso for necessário, que cortem, mas o largo vai perder muita da sua beleza".

Aqui há uns anos, ela esteve imenso tempo sem "dar folha", numa altura em que a Primavera estava já quase a acabar. Pensou-se que estaria morta mas, lá para meados de Junho, lá vieram (finalmente!) as folhas.

Quando ia a chegar a casa, no final da tarde, ao aproximar-me do largo, fiquei de boca aberta, parado no meio da rua, completamente estarrecido: restava apenas mais meio metro de tronco, cortado rente, perto so solo, e mais ramos no chão, na rua.


Devo dizer que vivo há mais de trinta anos nesta casa (trinta e seis, para ser exacto). E cresci com aquela árvore - passei milhares de vezes por ela, certamente. Foi a minha companhia diária nas idas para a escola primária e, mais tarde, quando comecei a trabalhar, quando ia a caminho do Metro com o António.

Quando comprei a minha primeira máquina fotográfica - foste tu, António, quem ma recomendou, lembras-te? Uma Cosina reflex, que veio com uma 35-70, e que tira(va) umas fotos espectaculares! - foi "a minha musa", digamos.

Devo ter algumas dezenas (se não forem mais de cem, mesmo...) de fotos com aquela presença central no enquadramento - sejam de Verão ou de Inverno. E quando nevou em Lisboa, há mais de ano e meio, foi a ela e àquele largo que apontei a digital que registou esses momentos únicos(?).


Percebo que ela pudesse estar doente. Mas não percebo nada de árvores, devo dizer. E, nesta minha ignorância, pergunto-me: se estava doente, não estaria há já muito tempo? Era preciso esperar por um estado irreversível dessa doença para, literalmente, "cortar o mal pela raíz"? Não haveria outra forma de a tentar curar?

Se calhar, não. Mas...

(Parto aqui do princípio de que é possível tratar ou curar atempadamente uma árvore. Se não for, aí o caso muda de figura.)

A senhora da mercearia aqui da frente disse-me que estaria já demasiado alta, e que, por estar efectivamente doente (estava mesmo), poderia cair para cima das casas do largo, caso viesse aí alguma ventania mais violenta.

Acho que isso são balelas. Parece-me que, se assim fosse, cortavam apenas os ramos maiores, que lhe davam a "problemática" altura que já tinha, e deixavam-na crescer novamente, não é? - como fizeram nos Castanheiros no Luso, por exemplo, aqui não há muitos anos.


Ou seja, estiveram-se nas tintas para a árvore durante anos. E agora, quando já não havia, hipótese alguma, zás! ... E aquela figura central do largo, daquele jardim, desapareceu. De repente, numa tarde.

Politiquices à parte, pergunto: isto é que é "gestão de espaços verdes"?

Sinceramente! ...



De árvores não percebo nada, volto a dizer. Mas aquela era especial - era, com já disse (mas, para mim, nunca é de mais realçar) a minha árvore. E tinham que cortar logo aquela, que Diabo!

Ao vê-la assim, fiquei como se tivesse levado um murro no estômago.

Achei que este corte foi de uma violência estúpida. Uma barbaridade, mesmo!

E olhem que não me estava nada a ver a escrever sobre algo assim desta maneira! Mas a verdade é que estava longe de imaginar que uma "simples" árvore pudesse ser assim tão importante com esta realmente era. E era.


Restam as fotografias, agora.


Nesta altura, gostava de ser positivo, e de pensar que, brevemente, vão começar a plantar novas árvores, para "repôr o largo no seu lugar", digamos. Mas acho que não vai voltar tão cedo a ser bonito como era. O que é uma pena. E bem grande.


Mas, o que é mais triste, é que acho que este largo nunca mais vai voltar a ser o mesmo.

3 comentários:

teresa simões disse...

:(. Só de pensar no assunto sinto-me nostálgica. Um beijo :(

Raquel disse...

As Árvores e a Feira Popular... Todo o nosso imaginário enquanto crianças vai sendo destruído! Hoje passei nas ditas ex-árvores e foi um choque!

ccunha disse...

Que pena
:(